18 de ago de 2011

"seo" Dorival

por Marco Nascimento


Ainda consigo me ver correndo pela rua, brincando com as outras crianças de minha idade. Sobe em árvore, desce de árvore, corre para um lado, corre para o outro, e você ali, com sua cadeia branca, sentado na esquina, olhando o movimento. Sempre acompanhado pela garrafa de pinga e seu fiel copo de vidro.

De tempos em tempos um gole era dado. Essa já tinha se tornado sua marca.

Me lembro de quando um novo companheiro se juntou a você. Aquele papagaio verde, alegre, que não parava de falar um minuto, te fazia companhia todos os dias, e contigo conversava sem parar. Chamando a atenção de todos que passavam pela rua.

Não era muito difícil, e estávamos todos lá, todas as crianças haviam abandonado a brincadeira, para ao seu lado sentar, e escutar suas histórias. Também falávamos sobre os mais diversos assuntos, e sempre tínhamos a garantia de boas risadas.

Apesar da grande diferença de idade, você, com seus cabelos brancos, sabia cativar a todos. Era o diferencial de nossa rua. A alegria e simpatia em pessoa. Não tinha quem não o conhecesse e falasse bem de ti.

É com lágrimas nos olhos que me recordo do dia que pela última vez, dentro do carro, você virou a esquina de nossa rua. Seus olhos pareciam já saber o que estava para acontecer, e com olhar de despedida, olhou para todos, um a um, que estavam sentados na calçada ao lado da sua.

Aquele olhar foi na verdade um abraço. Um agradecimento. Uma despedida.

Naquele dia você se foi... e não voltou mais.

A cadeira branca ainda ficou em seu lugar, mas do que adiantava, se o senhor já não estava mais lá. É “seo” Dorival, o tempo passou, você não está mais aqui, eu cresci, mas apesar disso, não tem como esquecer de ti. Um dos melhores, se não o melhor vizinho que eu já tive.

Saudades...

Abraços!

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